Entrevista: The Crypt (Nate Yuggoth e Raquel Gomes)
Detalhes inéditos de Lux Libera Me, um dos lançamentos mais ousados do metal contemporâneo.
Nesta entrevista exclusiva, Nate Yuggoth, a mente brilhante por trás da banda norte-americana de metal experimental THE CRYPT, e a cantora brasileira Raquel Gomes revelam os bastidores criativos de Lux Libera Me, um álbum que rompe barreiras de gênero e fronteiras culturais com influências da espiritualidade afro-brasileira, sonoridades experimentais e liberdade linguística.
Entrevista com Nate Yuggoth
O THE CRYPT explorou uma vasta gama de estilos ao longo dos anos. O que motiva sua decisão de mudar de gênero com tanta ousadia?
Nate Yuggoth: Meu amor pela música em geral! Meus pais sempre tiveram um gosto musical excelente, então me apresentaram a coisas incríveis como Peter Gabriel, Talking Heads e Pink Floyd enquanto eu estava completamente obcecado por metal. Além disso, na minha cidade natal, há um auditório onde eu assistia a apresentações de música clássica, jazz e world music quando era criança e adolescente.
Trey Azagthoth, do Morbid Angel, foi uma grande influência para mim, não apenas musicalmente, mas também em termos de mudar paradigmas e pensar fora da caixa. Pra mim, copiar outras bandas e repetir os mesmos caminhos dos outros é perda de tempo. Sou um cara muito esquisito, vindo de um lugar muito isolado e que percorreu caminhos bizarros, então minha arte tem que refletir isso.
Seu trabalho frequentemente envolve colaborações internacionais. Como essas influências culturais e linguísticas moldam seu processo de composição?
Nate: É uma outra forma de colorir a paleta musical. Quero sempre que minhas músicas sejam algo novo e criativo, mesmo que eu esteja compondo a partir de uma perspectiva de raiva ou tristeza pelo mesmo tipo de coisa. Isso exige um certo esforço por parte do ouvinte para destrinchar as camadas e tirar suas próprias interpretações, ainda mais se estiverem em um idioma diferente.
Se você pegar "Bunbak", a música com BÁL, significa simplesmente "bode expiatório", talvez em um sentido religioso ou social. Não era exatamente nossa intenção soar blasfemos ou malignos, mas se isso ofende alguém, azar o seu — é culpa sua tirar essa conclusão! Eu adoro criar letras que possam levar alguém a uma conclusão chocante, revelando mais sobre eles mesmos do que sobre THE CRYPT.
Para "Vihor Vremena", tive a ideia básica do progresso não linear da civilização — o fato de algo estar "avançando" não significa que está indo em uma direção favorável. Zmaj e Vozd construíram letras incrivelmente épicas em torno dessa ideia, expressando-a de maneira eloquente.
O THE CRYPT incluiu um teremim, vocoder e até batidas de hip-hop em suas músicas. Como você integra esses elementos não convencionais sem perder a essência de suas raízes no metal?
Nate: Normalmente, componho toda a música na guitarra ou baixo, portanto, no início, a base é sempre o metal. Desde que se mantenha a afinação, o ritmo e a harmonia corretos, não é tão difícil assim. Além disso, se pegar, por exemplo, a percussão brasileira ou a música folclórica persa, elas têm alguma conexão com o metal através de ritmos intensos ou tonalidades menores que se adaptam muito bem ao gênero.
Não consigo cantar mesmo que a minha vida dependesse disso, por isso o vocoder foi uma maneira bacana de adicionar uma sensação fria e mecânica à música — um dos muitos aspectos do nosso terceiro álbum e provavelmente o mais estranho, Vykadish.
O teremim foi tocado por Mike Browning, do Nocturnos e do Morbid Angel, o que traz uma raiz metal autêntica. Um dos nossos programadores de hip-hop é um cara local chamado Jester Exodus (ou Mudd), que já cantou em bandas de metal como Dichotic e V.A.D.
O hip-hop parece atrair o mesmo tipo de excluídos e intelectuais que o metal, portanto, essa foi uma escolha natural. Em um lugar isolado como o que eu vivo, inevitavelmente você acaba fazendo amizade com esses caras. A maioria da nossa música local tem um caráter único porque todo mundo tem um talento singular e pode acabar tocando no seu álbum de alguma forma.
O novo álbum, Lux Libera Me, apresenta canções cantadas por 11 mulheres em diferentes idiomas. Você pode compartilhar o processo criativo por trás desse conceito?
Nate: Inicialmente, queria fazer um álbum afro-caribenho, mas ele acabou absorvendo muitas influências de todas as músicas do mundo que eu amo — algo similar ao que o Dead Can Dance faz. Adorei o que bandas como Sepultura, Orphaned Land e Litham fizeram ao adicionar toques regionais à sua versão do metal. O primeiro álbum do Dr. John, Gris-Gris, também foi uma grande influência.
Escolhi os idiomas com base na minha fascinação por seus sons, gramática e culturas, bem como pelo fato de haver poucas ou nenhuma banda usando amhárico, hindi ou georgiano no metal. Muitas vezes, quando encontro algo de um lugar interessante, é apenas uma imitação de Burzum ou Darkthrone sem nenhuma originalidade. Mas, de vez em quando, você se depara com algo incrível como BÁL, Pustoš, Kekal, Weizador, Dusk (Paquistão), Beyond Your Ritual ou Vislig, que fazem algo especial.
Como único membro remanescente do Cryptic, o que manteve sua paixão e criatividade em mais de 25 anos de evolução do THE CRYPT?
Nate: O simples fato de que eu amo criar arte. Não tenho vontade alguma de tocar ao vivo (e definitivamente não de fazer turnês), e meu ódio pelo "negócio" da música só é rivalizado pelo meu ódio pela política na música, então tudo o que sobra é o aspecto criativo. Sinto que o THE CRYPT é uma versão excêntrica e dos Grandes Lagos do Bathory! Acho que eu enlouqueceria sem um projeto musical. É meu diário, minha forma de processar emoções, minha terapia.
Você acha que a música é uma ferramenta essencial para lidar com o mundo?
Nate: Com certeza absoluta. Não sei o que faria sem ela. Algumas pessoas têm esportes, outras têm religião, algumas têm drogas ou álcool. Para mim, é a música. Se não estou escrevendo, gravando ou tocando, estou ouvindo, analisando e descobrindo novas bandas e álbuns. Isso me mantém são.
Por fim, há algo que você gostaria de dizer aos fãs brasileiros?
Nate: Sim! O Brasil tem algumas das melhores bandas de metal do planeta, e sempre respeitei a paixão que os brasileiros têm pela música. Espero que um dia possamos lançar um álbum com algumas influências do Brasil. Muito obrigado pelo apoio, e espero que curtam Lux Libera Me!
Entrevista com Raquel Gomes
Também tivemos a honra de entrevistar a cantora brasileira Raquel Gomes, que empresta sua bela voz à faixa “Encruzilhada”.
Como sua experiência anterior em home studio influenciou sua abordagem na produção e colaboração?
Raquel: Eu trabalho com gravação em home studio há 18 anos e, ao longo desse tempo, fui me atualizando constantemente e aprendendo novas habilidades. Acho essencial ter versatilidade e conhecimento para adaptar o meu estilo de cantar à música, e não o contrário. Essa abordagem tem sido uma grande aliada em projetos de produção e colaboração nos dias de hoje.
Como surgiu a sua parceria com o THE CRYPT, e o que te atraiu na abordagem eclética e experimental da banda com o metal?
Raquel: Minha colaboração com o THE CRYPT começou através do Nate, que entrou em contato comigo para adaptar uma letra que ele já havia escrito em inglês para o português. Ele me deu total liberdade criativa, o que foi incrível! Fiquei muito empolgada ao saber que a inspiração para a música vinha das religiões afro-brasileiras, algo que também tenho estudado nos últimos anos ao longo do meu processo de redescoberta da minha espiritualidade. Sentir essa conexão temática fez com que tudo fluísse naturalmente, e o som experimental do grupo é algo que combina muito com o que eu gosto de explorar.
Pode nos contar um pouco sobre o processo criativo ao trabalhar com o Nate Yuggoth nesse projeto ambicioso?
Raquel: O processo foi muito fluido e colaborativo. O Nate me deu liberdade para modificar a letra, para fazer uma boa adaptação para o português e, além disso, eu também pude contribuir com os conhecimento que adquiri na minha jornada pessoal. Nossa conexão em relação ao tema da música tornou tudo mais especial. Essa troca de idéias e o fato de termos visões alinhadas tornaram o trabalho não só fácil, mas também muito gratificante.
No contexto da música do THE CRYPT, com quais desafios ou oportunidades diferenciadas você se deparou ao cantar em português?
Raquel: Eu nunca havia gravado uma música de metal em português antes, então essa foi uma oportunidade nova e interessante. Apesar de diferente, não diria que foi desafiador, pois passei 5 anos estudando música brasileira depois de sair da minha antiga banda, o Hydria. Na verdade, cantar em português nesse contexto foi uma experiência muito gratificante e trouxe um toque único ao trabalho.
Qual a diferença entre seu trabalho com o THE CRYPT e suas outras experiências profissionais como vocalista? Você já havia explorado outros projetos experimentais antes?
Raquel: Minha colaboração com o THE CRYPT é diferente porque a faixa mistura o metal com temáticas mais brasileiras, algo que eu nunca havia explorado antes. Eu fui vocalista de uma banda de metal sinfônico, o Hydria, por sete anos, então o metal já faz parte da minha trajetória. Contudo, trazer elementos experimentais e raízes brasileiras para a música foi algo novo e muito especial para mim. Embora nunca tenha feito algo exatamente assim antes, sinto que essa experiência uniu diversas fases da minha jornada musical de forma única.
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